Brasil – Entrevista a Dave

RIO – Chá e biscoitos são uma tradição inglesa. Foi com esse nome, Tea & Biscuits, que a banda britânica Depeche Mode divulgou para a imprensa as faixas de seu novo disco, “Sounds of the universe” (EMI), cercada de precauções (cada repórter teve de assinar um termo para ter acesso a um site para ouvir as músicas em streaming, não baixáveis, mas rastreáveis). Mas não adiantou (quase) nada.

No dia da entrevista com o cantor Dave Gahan, uma das bem protegidas faixas do disco, “Fragile tension“, já estava na rede. E aí, Dave?

– (solta o ar e dá uma leve risada, como quem diz “fazer o quê?”) A faixa que vazou foi uma versão não acabada, não é a da música que está no álbum (mais ou menos, é bem próxima do resultado final), é um rough mix, uma mixagem incompleta, que alguém deve ter pegado no estúdio – diz um bem-humorado Gahan, por telefone, ao GLOBO. – Mas isso acontece, a Internet é assim, não há nada que possamos fazer a respeito.

A propósito, Gahan diz ter saudades do tempo em que se compravam discos nas lojas:

– Às vezes fico meio desapontado com isso porque, enquanto crescia, achava muito importante descobrir o disco de meu artista favorito, ouvir as músicas com calma, descobrir aos poucos o que ele queria dizer. Havia um elemento-surpresa excitante. Agora se tornou algo muito fácil, vulgar.

Às vésperas de completar 30 anos de estrada e com 12 álbuns, como vê a trajetória do Depeche Mode? A banda alcançou os seus objetivos?

– É estranho, porque não paro para pensar nisso, honestamente. Nós passamos por muitas coisas juntos (inclusive, Gahan já quase morreu de overdose nos anos 1990) e cada vez que começamos a gravar um novo disco não paramos para falar em quanto tempo estamos juntos, simplesmente vamos lá e gravamos o disco – diz. – Mas poderia dizer que, juntando todos os álbuns, são como partes de um filme. Juntando tudo dá alguma história. É isso o que me interessa, saber que a banda continua unida, nunca paramos para pensar no que vamos fazer depois.

Será que a história teria sido diferente se um dos integrantes originais (saiu logo após o primeiro disco e formou o grupo Yazoo, e, mais tarde, o Erasure), Vince Clarke, tivesse continuado na banda?

– Isso é dificil de dizer porque Vince deixou o grupo em 1981. Mas, de certa forma, quando ele saiu, algo mudou, porque ele catalisava tudo, e ficamos mais unidos, de certa forma. Ele meio que dominava tudo, e, sem ele, seguimos só nós três (além de Gahan, o guitarrista Martin Gore e o tecladista Andrew Fletcher) e fizemos um belo disco com Alan Wilder (produtor que passou a integrar a banda), “A broken frame” (1982), e depois gravamos o “Construction time again” (83), e moldamos uma característica sonora Depeche Mode (mais sombria do que o synth-pop alegrinho das primeiras músicas com Clarke, como o hit “I just can’t get enough”), criando um novo entusiasmo que nos fez bem e nos levou a novas idéias. Alan (Moulder, que também já deixou a banda) era melhor músico do que todos nós e ajudou a moldar o som do Depeche Mode como o conhecemos hoje. Quem sabe o que teria acontecido se Vince continuasse? Nós estaríamos aqui hoje? É difícil dizer.

O tempo passa, e o som do DM continua parecido: sombrio, pesado, depressivo, uma espécie de electro blues. E “Sounds of the universe” até lembra os discos mais antigos da banda nesse quesito, é cheio de ruídos industriais, dark, e tem algumas faixas que se encaixam nessa descrição, como “Wrong“, já um clássico instantâneo da banda.

– É meio estranho dizer isso, mas não sentimos nossas músicas tão depressivas assim. Na real, elas são muito pra cima, o clima que é meio dark, os arranjos. Mas, nas letras, há muita esperança e vida. Se você ouvir direito, verá que não é óbvio.

Se você diz, Dave… Há algum conceito a partir do nome do novo disco, “Sons do universo” (em português)?

– Sinto que ele traz uma coisa mais espiritual ou gospel, de algum modo. Para mim, ele tem também um pouco de humor negro. Mas acho também que não pensamos em conectar isso e criar um conceito quando começamos a gravar. Algumas faixas existiam antes, outras vieram depois e foram unidas até dar o clique de que valia à pena juntá-las no mesmo disco – explica.

Aliás, nos últimos dois discos da banda, Gahan vem participando mais como letrista, coisa que antes era quase uma exclusividade do guitarrista e cantor Martin Gore (que canta a faixa “Jezebel”). Como se dá a dinâmica entre os dois?

– É uma coisa muito natural. Comecei a colaborar mais nos últimos discos. Martin é pura composição, já faz isso sem pensar. Mas começamos a trabalhar juntos logo após acabar o disco anterior, e foi tudo bem rápido. Nesse meio tempo, fiz o meu segundo álbum solo, “Hourglass”, e me exercitei mais um pouco. No geral, é uma dinâmica tranquila, participativa, vemos o que funciona e o que não dá certo, fazemos umas demos, e assim as músicas vão saindo, calmamente. Martin traz tantas canções boas que nem preciso me esforçar muito para completar o álbum, embora desta vez eu tenha participado mais.

Ao vivo, grande parte da força do Depeche Mode está na performance de Gahan, sofrida, energética, de total entrega. O quanto isso o drena fisicamente após cada espetáculo?

– Eu gosto muito da performance, gosto de botar tudo de mim em cada canção. Cada música é diferente. Mas, realmente, após cada show eu me sinto meio drenado. Mas aí eu fico um pouco com a banda para descansar e conversar até a adrenalina passar. Tento colocar toda essa energia também em estúdio, mas é um pouco diferente. No palco, eu posso me soltar um pouco mais, nunca sei como vai ser, qual a resposta do público.

O Depeche Mode começa a sua nova turnê (que já tem uma data no dia 30 de maio esgotada na Arena O2, em Londres) com um show em Tel Aviv, Israel, no dia 10 de maio. Por que começar por lá?

– Decidimos isso no fim da última turnê, porque cancelamos um show que faríamos lá – que já estava com os ingressos esgotados – por problemas de segurança. Então, achamos que era um modo de dar aos nossos fãs de lá uma nova chance, já que eles nos apoiaram. Espero que desta vez nada aconteça. Da outra vez aconteceu algo que fugiu de nosso controle, relativo à segurança, e tivemos que tomar essa decisão de cancelar, porque era um lugar aberto, mais sujeito a ataques.

E o Brasil (onde a banda só esteve para dois shows em São Paulo, em 1994), alguma chance de vermos o DM este ano?

– Não sei te dizer isso agora, mas tenho esperanças de que iremos aí ainda este ano.

E, para finalizar, Gahan contou o quanto eles realmente gostam de chá com biscoitos:

– Adoramos. Passamos muito tempo no estúdio tomando chá com biscoitos. Às vezes é só o que temos.

Fonte: Globo

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1 Response to “Brasil – Entrevista a Dave”


  1. 1 DEMO101 17/02/2009 às 1:42

    A entrevista contém alguns erros (Alan Moulder, produtor,etc.) que não foram corrigidos para manter a integridade da entrevista. Apesar deste facto é uma leitura interessante.

    É referido que “Fragile Tension” não é a versão final. É algo que me deixa satisfeito 🙂


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